MEXERAM EM MINHA CAIXA DE BRINQUEDOS

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Lembrei-me das viagens de trem que fazia quando criança para uma cidade próxima, Pedregulho, onde moravam meus avós paternos. Era uma locomotiva antiga, toda preta, enorme, a Mogiana,  movida a lenha ou carvão. Os arranjos musicais me transportaram aos sons da locomotiva, das rodas sobre os trilhos, do apito do guarda da estação, do apito da locomotiva que respondia ao guarda, das descargas de vapor, o burburinho da multidão. Todas aquelas pernas apareciam de repente e nos espremiam na plataforma. Nessa hora tinha que apertar a mão de minha mãe. Já íamos embarcar. Descobri mais uma mágica da música, ela é capaz de abrir os arquivos de cheiros, sons e imagens da memória. Sempre me recordo dos cheiros da infância. Esse era um cheiro de óleo e fumaça, um cheiro metálico. Muitas imagens cascatearam abundantes de volta à minha mente, algumas que imaginava terem se perdido depois de todos esses anos. Os bancos de madeira no interior do vagão, as paredes avermelhadas, as janelas, as rodas e os trilhos, as pasadas de carvão que eram atiradas ao fogo da caldeira, a multidão que se avolumava na plataforma da estação. Lembro-me de muitas pernas, saias e calças, mais das pernas do que das pessoas,  acho que é a perspectiva de quem olha de baixo para o alto.  Mas o que mais me empolgava durante estas viagens eram as rodas da locomotiva acionadas pelo pistão, as manobras que se fazia para juntar os vagões do comboio e ninguém, nem que tentássem, conseguiria me afastar da janela. A velocidade, o sacolejo,  o vento, a paisagem que passava correndo, as paradas, Indaiá, gritavam. Tinha também o homem que vinha picotar as passagens e tinha também pacotes de biscoito. E na volta, à noite, nas curvas da estrada, era sempre uma festa observar as rajadas de brasinhas expelidas pela chaminé lá na frente do comboio serpenteando, fazendo as curvas. No dia seguinte, de volta à casa, repetia tudo aquilo com meus trenzinhos de brinquedo. Eu ia ser maquinista quando crescesse.